Relato de um seguidor. A foto (autoria desconhecida) não tem relação com a história narrada.

Na fronteira imaginária entre Olinda e Paulista, escondido entre as localidades famosas da RMR, existe um bairro chamado Cidade Tabajara — lugar de ruas antigas, árvores que sussurram segredos ao vento e histórias que, de tão absurdas, só poderiam mesmo ser verdade. É lá que vive Dona Iracema.

Pouco se sabe sobre sua idade. Talvez oitenta, talvez mais. A verdade é que ela parece ter o tempo grudado na pele, nos olhos cansados, nos passos lentos que arrastam memórias por um sítio onde, um dia, morou uma família inteira. Vinte pessoas, unidas por laços de sangue e um sonho: construir uma casa e criar raízes.
O início foi promissor. A primeira casa ergueu-se com esforço coletivo e orgulho. Mas bastaram alguns dias para que o sonho virasse cinza: a construção pegou fogo, sem aviso e sem testemunhas. Ninguém se feriu — ainda.

Senhor Antônio, marido de Dona Iracema, homem teimoso como se deve ser um bom patriarca nordestino, não se deu por vencido. Mandou refazer a casa no mesmo lugar, desafiando o que quer que tivesse acontecido ali. Pagou com a vida. A nova casa ardeu em chamas na madrugada seguinte, levando junto seu corpo e parte da sanidade de quem ficou.

Enterraram Antônio ali mesmo, no chão maldito onde duas casas se desintegraram. Em luto, mas determinados, os sobreviventes ergueram um novo lar, um pouco mais distante do lugar das tragédias. Dessa vez, nada pegou fogo — mas algo mudou no ar.
Começaram os barulhos durante a noite. Portas que se abriam sozinhas. Janelas escancaradas que ninguém lembrava de ter tocado. E então, numa madrugada chuvosa, dois filhos de Dona Iracema desapareceram. Sem gritos, sem rastros. A única pista: a janela da sala, mais uma vez, estava aberta ao amanhecer.

O tempo passou, como costuma passar para quem tem que continuar vivendo. Até que, anos depois, Iraci — irmã de Dona Iracema — veio morar no sítio, para fazer companhia e tentar aquietar a dor da irmã. Numa manhã comum, foi até a cacimba buscar água e lá, no fundo do poço, jurou ter visto os sobrinhos desaparecidos.
Correu de volta, chamou Iracema, que abandonou o fogão e foi ver com os próprios olhos. Gritaram os nomes dos meninos, mas já era tarde: o poço estava vazio. O silêncio respondeu por eles.

Naquela mesma noite, Iraci sumiu também. Nunca mais voltou, nem sequer deixou um vestígio de onde foi ou por que partiu. Desde então, os desaparecimentos se tornaram rotina. Um por um, os familiares de Dona Iracema desapareceram no tempo, nas sombras, nos mistérios que o sítio parece alimentar como se fosse um ser vivo.
Hoje, só ela permanece ali. Sozinha? Talvez. Dona Iracema garante que não. Diz que conversa com os filhos, com o marido, com a irmã. Todos ainda vivem por ali, de alguma forma. E quem somos nós para duvidar?

Talvez Tabajara guarde segredos que jamais serão explicados. Talvez o sítio de Dona Iracema seja apenas uma casa velha com muitas lembranças. Ou talvez — e só talvez — existam lugares onde o mundo dos vivos e dos mortos se cruzam sem pedir licença.
E é melhor não bater na porta de Dona Iracema se você não tiver coragem de escutar o que ela tem a dizer.


Por Clécio Bernardo Dias