![]() |
| Em breve, a gente vai trazer um conto assombrado do Cemitério dos Ingleses. Foto: Clécio Bernardo |
Escondido entre o vaivém da Avenida Cruz Cabugá, no bairro de Santo Amaro, repousa um dos mais antigos e silenciosos capítulos da história do Recife: o Cemitério dos Ingleses — ou British Cemetery, como ainda é chamado por muitos.
Fundado em 1814, é a necrópole mais antiga da capital pernambucana. Sua criação remonta a 1811, quando começaram os primeiros esforços para estabelecer um fundo britânico com fins religiosos e caritativos em Pernambuco. Três anos depois, sob ordens do Príncipe Regente, o então governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro desapropriou um terreno em Santo Amaro das Salinas — uma área relativamente isolada à época, vizinha ao antigo Lazareto, onde escravizados recém-chegados da África eram postos em quarentena.
A área inicial, com 120 palmos de frente por 200 de fundo, foi oficialmente doada ao cônsul inglês, com o propósito de ali se construir um cemitério voltado à colônia britânica residente no Recife. Com o passar do tempo, a própria comunidade inglesa se encarregou de ampliar o espaço, adquirindo terrenos adjacentes.
Embora tenha sido criado para acolher os mortos da comunidade britânica, o cemitério também recebeu, ao longo dos anos, pessoas de outras nacionalidades e, sobretudo, brasileiros protestantes. Isso se devia ao rígido posicionamento da Igreja Católica da época, que negava sepultamento em campos santos a quem não professasse a fé católica.
Entre os que ali repousam, destaca-se o general José Inácio de Abreu e Lima — revolucionário, maçom e figura central na luta pela independência da América Espanhola. Por causa de sua ligação com a maçonaria, teve o sepultamento recusado no tradicional Cemitério de Santo Amaro, sendo acolhido pelo cemitério inglês. Ironias da história: um brasileiro rejeitado pela própria terra, acolhido pelo solo estrangeiro dentro de sua cidade natal.
Hoje, o Cemitério dos Ingleses permanece como um refúgio de silêncio em meio à cidade que pulsa ao seu redor. Um lugar onde a memória, a fé e o exílio final se cruzam sob lápides gastas pelo tempo.
Por Clécio Bernardo

0 Comentários